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Do Pilotis

Uma quíti?


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Eu sempre gostei de sair por aí, assim meio sem rumo, seguindo as linhas de um mapa qualquer. Gosto da surpresa do que está por vir - um sorriso em alemão, um bom dia em pernambuquês, um obrigado sem sotaque. Desde bem pequena aprendi a prestar atenção no diferente: eu achava divertido viajar de carro só para acompanhar os piscas que os caminhoneiros trocavam a cada curva; para mim um oi silenciado, quase como um carinho no meio do mundo de asfalto. De tanto andar nas estradas, com meu pai ao volante mostrando as árvores que iam mudando pelo caminho - e que fizeram do meu livro de geografia uma leitura muito mais interessante - o verbo ir se tornou para mim um quase sinônimo do viver.
 
É verdade que meus olhos foram treinados nos eixos, entre números e raciocínios lógicos; muito mais preocupados com as sequências ou com a quantidade de voltas pelas tesourinhas. Por isso talvez que qualquer Avenida Brasil sempre me pareceu mais interessante: a dificuldade em convencer a minha cabeça sobre referências ou fazer soar natural a rima entre travessa e um nome próprio qualquer me faz mais atenta e interessada. Ir para a cachoeira ou cruzar o mundo, sendo filha de uma cidade modernista, é sempre ganhar o melhor dos presentes.
 
Por muito tempo então eu achei que qualquer lugar seria melhor que aqui. Eu adoro o diferente, sou encantada com ruas intermináveis, cheias de vitrines para serem vistas, com uma penca de gente para observar. No desconhecido, vestida de anônima, gosto de imaginar; e quando acho que acaba, percorro mais duas ou três quadras e de novo enxergo o mundo como eu gosto de ver. Daí, com as horas que passam, os dias que seguem, me falta o pedaço de mim onde me reconheço - o que me faz ser eu, com tudo o que tenho aqui dentro.
 
E assim, como a surpresa do desconhecido, numa dessas horas que me falta um pedaço, eu finalmente entendi que o trocadilho de um amigo outro dia é um elogio lindo - ao invés da crítica aparentemente tão clichê. Nossa cidade ser uma quitinete, onde tudo fica amontoadinho e se esbarrando, nos dá personalidade e memória. Uma ida ao cinema e, voilá, se ganha a conversa despretensiosa com o amigo-do-amigo, justamente aquele que você só conhecia de vista. Do pulinho ao supermercado, a ótima coincidência se transforma em abraço no vizinho sumido. Ou, na baladinha descolada do sábado, a gente se torna o feliz ganhador do reencontro com seu colega da terceira série - vinte e dois anos depois. Dessas, sabe?, que quando acontecem a gente fala que só poderia ser em Brasília, mesmo.
 
Nas entrequadras, passando pela ponte, nessa cidade pequena com cara de grande, nossas referências se tornam os amiguinhos do colégio, as histórias dos outros que são quase nossas, os queridos que se conhecem e que a gente adora descobrir que fizeram isso by themselves; nos dando a incrível certeza de que estamos muito bem acompanhados. Nesse espaço pequeno, que pode até ser mesmo uma quitinete, a gente tem sempre alguém se encontrando. Mostrando que muito melhor do que as referências de concreto é ter as de gente de verdade - porque essas sim são cheinhas de emoção.
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Sabrina Nogueira é arquiteta e urbanista, brasiliense de certidão e coração e acredita que a cidade é um lugar lindo para se viver: basta querer.
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